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Jornalista vem a Poços e lança livro no Flipoços (foto: Luis Paulo Ferraz)

Menos de dois meses após o lançamento do livro “Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil”, a jornalista Cristina Serra se vê diante da triste possibilidade de continuar contando as histórias das vítimas de tragédias como a que na última sexta-feira (25) acometeu Brumadinho (MG). Enquanto assimila o acontecimento, ela anuncia a presença na 14ª edição do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, o Flipoços, que neste ano ocorre entre os dias 27 de abril e 05 de maio e tem como tema “Literatura sem fronteiras”, com entrada gratuita.

A jornalista, que desde 2015, após cobrir como repórter de TV a tragédia em Mariana (MG), ouve histórias de vítimas e apura o que levou a barragem a se romper, destaca que Brumadinho já era uma “tragédia anunciada” e que tal acontecimento já estava previsto no livro, especialmente diante da falta de fiscalização, já que logo após o desastre em Mariana, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) afirmou que possuía apenas cinco funcionários para fiscalizar as mais de 600 barragens do país.

Para ela, falar do tema no Flipoços é fundamental. “Acho da maior importância debater essas tragédias num festival literário porque precisamos amplificar essa discussão para toda a sociedade. E um evento como o Flipoços pode dar essa amplitude. Vejo com muita tristeza e perplexidade, nos dois desastres, o de Mariana e o de Brumadinho, o total descaso com a vida humana e com o meio ambiente. Essa é uma pauta urgente da sociedade brasileira, no momento em que governos estaduais e o governo federal recém-empossados, falam no desmonte da legislação ambiental brasileira. Para o Estado de Minas Gerais esse debate é ainda mais crucial. Como o Flipoços acontece em Minas, tenho certeza que será um palco importante para reverberar esse assunto e levá-lo a todo tipo de público leitor que participa da feira”, declarou.

 

Sobre o livro

No livro, Cristina reúne as informações sobre as 19 pessoas mortas em Mariana e os relatos de descaso diante do crime. Na obra, ela tenta entender como funciona o licenciamento ambiental no Brasil, que ela trata como “irresponsável” e alerta para a possibilidade de outras catástrofes. A obra relata também as tentativas frustradas de se entrevistar os dirigentes das instituições de licenciamento ambiental que, nas palavras do promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, do Ministério Público de  Minas Gerais, peça-chave nas investigações, deram um “cheque em branco para a Samarco construir e operar uma barragem sem que o órgão tivesse ciência do projeto”. Carlos Eduardo Ferreira Pinto era o chefe da força-tarefa designada para investigar o caso, mas acabou afastado e passou a ser investigado por acusações que se provaram infundadas e que já foram arquivadas.

Casarão Choperia

Tragédia em Mariana se divide em capítulos curtos que ainda abordam o impacto da tragédia na reserva indígena dos Krenak, que acreditavam que o Rio Doce era habitado por espíritos sagrados, na vida daqueles que perderam seus familiares e no ecossistema fluvial. A descrição dos bastidores da reportagem transporta o leitor para o desolador cenário de devastação. Ao fim da leitura, o sentimento de indignação é ainda reforçado pela conclusão de que nenhuma medida efetiva foi tomada para prevenção de outras catástrofes, pelo contrário. O licenciamento, segundo o procurador, foi flexibilizado: “Até dá para entender que o licenciamento, muitas vezes, é burocrático, mas isso é por ausência de investimento e de política pública para os órgãos de licenciamento. Então, os órgãos perdem agilidade e se torna muito mais fácil mudar a legislação. Fato é que, do rompimento para cá, a legislação se tornou mais flexível e cada vez mais se exige menos dos empreendedores. Por consequência, se aumentou o risco para a sociedade. Nossos legisladores não entenderam a gravidade da situação.”

Para escrever o livro-reportagem, Cristina se dedicou integralmente ao projeto durante três anos. Agora, não descarta contar também a história do desastre também em Brumadinho.

“Tenho pensado muito nisso. Recebi dezenas de mensagens me pedindo que escreva sobre Brumadinho. Neste momento em que estamos conversando já são 60 mortos e esse número tende a aumentar. Esse incomensurável custo humano já justifica um livro. Não sei se eu terei condições de escrever este livro. Mas a tragédia de Brumadinho exigirá um livro. Pensei até no nome: “Vozes de Brumadinho”. As vozes da comunidade que já se preocupava com os riscos da barragem não foram ouvidas antes do desastre. Tragicamente, terão que ser ouvidas agora”, acrescentou Cristina.

 

Sobre a autora

Cristina Serra nasceu em Belém (PA) e formou-se em Jornalismo na Universidade Federal Fluminense.  Trabalhou nas redações dos jornais Resistência, Tribuna da Imprensa, Leia Livros, Jornal do Brasil, da revista Veja e da Rede Globo. Na TV, foi repórter de política em Brasília, correspondente em Nova York e comentarista do quadro “Meninas do Jô”, no Programa do Jô. Em 2015, foi escalada para a cobertura do desastre em Mariana, pelo Fantástico. No começo de 2018, ajudou a fundar o canal digital My News.

*com informações da Assessoria de Imprensa do Flipoços

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